domingo, fevereiro 12, 2006

Liberdade

André Petry
A favor da blasfêmia
"Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará"
Atenção, amantes da liberdade: autoridades religiosas estão tentando aproveitar a crise das charges dinamarquesas para suprimir o sagrado direito à blasfêmia. Os chefes islâmicos, com sua absoluta ignorância sobre o que é um Estado laico, exigem que o governo da Dinamarca se desculpe publicamente pela publicação das charges. Não compreendem que o governo não tem do que se desculpar porque não tem a mínima responsabilidade sobre o que publica ou deixa de publicar um jornal independente. Se o governo dinamarquês cair na cilada estará decretada a vitória do atraso: a tutela do Estado sobre a imprensa e, no rastro dessa miséria, a restrição da liberdade de crítica à religião.
Autoridades católicas também tentam arrancar um naco da liberdade de expressão. O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, fez questão de solidarizar-se com os muçulmanos porque, entre outras razões, a própria Igreja Católica gostaria de restringir o direito à blasfêmia dentro de seus domínios. No mesmo texto em que defende os censores islâmicos, o jornal reclama de uma peça de teatro em cartaz em Madri, na Espanha, que satiriza o papa e "incita à apostasia".
É curioso que, na semana passada, a imprensa brasileira tenha começado a se encantar com a censura religiosa. Mesmo depois de tantas bandeiras queimadas, prédios depredados e vidas perdidas, continuaram a aparecer artigos, colunas e editoriais defendendo as trevas. Sustentava-se que as charges são grosseiras e sua publicação é uma irresponsabilidade, que os desenhos são uma incitação ao ódio religioso, que a Europa está ficando islamofóbica, que defesa da liberdade de expressão nesse caso não passa de um sofisma idiota e até que – supremo horror – o Ocidente perdeu o valor do sagrado. São idéias ingênuas. Ou espertas demais.
Não importa que as charges sejam grosseiras (e são). Não importa, para efeito desta discussão, que a Europa esteja dando sinais de islamofobia (e está). Não importa que a explicação do jornal dinamarquês para publicar as charges – medir até onde os chargistas ousariam ir na sátira ao profeta Maomé e ao islamismo – seja juvenil. Na democracia, temos o direito à blasfêmia. Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.
A blasfêmia é o antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite à imaginação e ao trânsito de idéias do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de fossilizar-se. A liberdade de blasfemar é essencial porque deus, seja ele qual for, é uma idéia, e não um dado da realidade. E temos o direito de criticar, negar, satirizar toda e qualquer idéia, desde que ao fazê-lo não incitemos ao crime. Se não houver direito à blasfêmia, então devemos rasgar os versos de Dante Alighieri e Fernando Pessoa, queimar os filmes de Godard e de Theo van Gogh, incinerar os livros de Salman Rushdie, quebrar os pincéis de Giovanni de Modena e destruir os afrescos da Basílica de São Petrônio em Bolonha...
Temos o direito sagrado à blasfêmia, assim como, pelo mais elementar princípio da tolerância religiosa, temos o direito sagrado de acreditar em Deus e reverenciá-lo. Ou não.
"Liberdade para dentro da cabeça." Liberdade de ação e justiça social.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Cuidado! Nem sempre quem posa de defensor da liberdade realmente o é. As palavras em defesa da liberdade de imprensa podem ser eufônicas, mas escondem muito mais do que a Veja, ou o autor, desejariam deixar entrever.
As caricaturas foram apenas o estopim, o motivo, a bandeira de fundo. O que realmente move os protestos contra o Ocidente(e aí eu incluo "contra o modo de vida ocidental") no Islã é o ódio, culpa dos próprios ocidentais, que invadem as capitais do mundo islâmico com suas marcas, sua mercantilização, sua alienação...ou seja, tentativas de destruir sua cultura. Muito bonito isso, diria ao senhor André Petry, quer dizer então que o Estado não assume a culpa porque essa é uma sociedade liberal? E o jornal Jyllands-Posten não assumirá porque seria um desrespeito à liberdade de imprensa...Mas é óbvio que nenhum dos dois assumirá a culpa e se curvará diante de países onde se fala o Árabe e se recita o Alcorão...países subdesenvolvidos, países de 3° mundo, países de 3° nível.

5:57 PM  
Anonymous Anônimo said...

Países que devem bilhões para o FMI, países que, a exemplo da América Latina, deveriam aceitar a política econômica ditada por Washington(será?).
Não se trata de uma mera crise, ou de um mero caso. É um processo histórico. O Ocidente, as empresas capitalistas e multinacionais, as marcas, o estilo de vida, o trabalho assalariado, o Estado Liberal, a "liberdade de imprensa"...é o que se quer implantar no Islã. E o que os islâmicos fazem? Reajem! É o que nós, latinos, não soubemos fazer bem no passado e hoje sofremos por isso. Sim, se eu estivesse no Afeganistão, no Paquistão, ou no Irã, mesmo sendo latino, estaria na linha de frente...na linha de frente dessa batalha histórica entre opressor e oprimido.

6:04 PM  
Anonymous Anônimo said...

Ps...ao terminar de ler o artigo de Petry, seu clamor pela força do pensamentoXdogmas soa como um clamor para à guerra...sim, guerra.
Não fala o senhor Petry que "A blasfêmia é o antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite à imaginação e ao trânsito de idéias do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de fossilizar-se"? O recado é claro: 'Ocidentais sensatos, se a publicação de meras charges levam a tanta violência por parte do Islã, é claro que eles ainda não alacançaram o estágio de desenvolvimento cultural que nós, ou seja, são eles inferiores a nós. Precisamos ir lá libertá-los e o primeiro passo é destruir a religião deles...destruir o Islã'.

A única barreira que preservou o Islã de sucumbir diante a invasão cultural do Ocidente foi a religião islâmica. Porque será, então, que aproveitadores como Petry aproveitam o momento para pegar carona? Para atropelar o Islã, a última barreira entre o Ocidente e as riquezas misteriosas do Oriente.

6:20 PM  

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