Hoje, eu abortei.
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“Hoje, aos 16 anos, eu abortei. Foi a pior experiência da minha vida, mas foi necessária. Não tive amparo de ninguém. Meu ficante, com quem tive um relacionamento de 6 meses, disse que não iria assumir a criança. Fiquei desesperada.
Não sabia a quem recorrer. Minha família nunca aceitaria uma mãe solteira, e nem damos conta de pagar as contas de água e luz, imagine mais um na família? Foi por isso que ajuntei os trocos que eu tinha e procurei por uma amiga, uma clínica, clandestina sim, onde fui fazer o aborto.
Ao chegar na “clínica”, notei que a assepsia era inexistente e o cuidado, totalmente precário.
Mesmo assim, com medo, entrei e perguntei quanto era à recepcionista. Ela disse: “R$ 90 reais antecipados, senta aí que o doutor já vai te atender”.
Sentei e esperei. Dez minutos... Vinte minutos... Enquanto isso, eu escutava gritos de dor na sala ao lado. Trinta minutos depois saiu uma garota, com aparência cadavérica, tinha 17 anos, mas aparentava ter 30.
Chegou a minha vez. Entrei na sala, coloquei o avental e deitei na maca. O “médico” começou o procedimento e finalizou pela curetagem. Tudo sem anestesia. A dor foi inimaginável. A culpa, sem proporções.
Passei por tudo isso. Cheguei em casa, com fortes dores no útero, olhei para minha saia, estava vermelha. Desmaiei. Acordei no hospital, com minha família em volta, perguntando o que havia acontecido. Pouco depois descobri que meu útero havia sido retirado, pois havia sido perfurado no momento da curetagem mal-feita e, se não tivesse sido levada às pressas ao hospital, havia morrido devido à hemorragia interna.
Paguei um alto preço pelo aborto clandestino, perdi a chance de ser mãe de novo.
Paguei um alto preço pelo aborto ser considerado crime no Brasil, e eu não ter tido acesso ao tratamento adequado, que é garantido por lei, mas rejeitado pela hipocrisia dos defensores da “vida”.
Essa estória é real, pois é vivenciado todo o ano por mais de 240 mil brasileiras, de todas as idades, que são submetidas a abortos sem o menor cuidado, por pessoas despreparadas. Essas mulheres acabam tendo de ser internadas, por complicações decorrentes do aborto, mencionadas na estória.
Não há como negar que esses abortos acontecem. Sem o amparo da lei, quem sofre são apenas as mulheres pobres, pois as ricas têm a opção de abortar por R$ 800 numa clinica “segura”.
Enquanto a hipocrisia persistir, o aborto continuará sendo não um problema moral, mas um grave problema de saúde pública, pois os abortos mal-feitos tem como conseqüência lotação dos hospitais, onerando ainda mais a sucateada saúde pública.
